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  • Ana Luiza de Lima

Tecnologia, Cidadania e Ativismo

Atualizado: Out 30




Illustration by Maria Chimishkyan


Por aqui já exploramos algumas vezes a quebra da fronteira entre o que chamamos de real (ou físico, no caso) e virtual. Abordei esse tema no post Phygital, que debate as estratégias físicas + digitais abordadas por diversas marcas.


Explorando o tema um pouco além de marcas, vamos tratar neste texto da capacidade política da virtualidade. Desde o começo dos anos 2010s fala-se sobre ativismo virtual, e quando ultrapassamos as barreiras do entretenimento conseguimos vislumbrar o poder da sociedade em rede conectada.


Embora haja uma grande contradição na cidadania digital quando se considera o uso ativo da tecnologia da informação para se envolver na sociedade e estar sob vigilância não apenas do governo, mas de várias empresas, a Internet reforçou as instituições sociais de poder econômico, político e social, ao mesmo tempo que permitindo-nos promover mudanças. A disseminação da mídia social e a capacidade de alavancar informações por meio do que agora é chamado de capitalismo de vigilância impactou drasticamente os sistemas governamentais. O potencial da Rede afetou diretamente os movimentos sociais e políticos, incluindo uma mudança radical na dinâmica dos protestos.

O ativismo digital cresceu nas últimas décadas como um recurso de mudança social e um processo de mobilização de recursos. Compreender as implicações da tecnologia neste processo permite-nos compreender os futuros possíveis quando se considera a democracia e outras formas de governo.

À medida que a internet se desenvolveu como uma parte central do dia-a-dia da humanidade nas últimas décadas, os dispositivos e as plataformas de mídia social se tornaram uma extensão de nós mesmos, a existência agora é dual: os humanos são tão físicos quanto digitais. A presença online é uma grande parte do ser.

O aspecto político também foi traduzido e expandido em ativismo digital, político e social, que agora inclui petições virtuais, fundos online, fóruns para debater questões e o uso de redes online para divulgar e envolver mais pessoas para influenciar o processo político.


Ativismo digital Compreender o impacto do protesto online e do ativismo digital permite entender como a sociedade está tentando superar o autoritarismo e a censura por meio da capacidade política da virtualidade, por meio de plataformas como games, mídias sociais e apps. Desde o início dos anos 2010, fala-se em ativismo virtual. Quando superamos as barreiras do entretenimento, podemos vislumbrar o poder da sociedade em uma rede conectada. O deslocamento de protestos que começam nos ambientes virtuais e se estendem pelas ruas se tornou um dos grandes movimentos desta segunda década do milênio. Já em 2011, vimos o crescimento da Primavera Árabe que mostrou a força dos protestos nas redes sociais para desestabilizar o poder político de um país. A Primavera Árabe foi uma série de protestos antigovernamentais, levantes e rebeliões armadas que cresceram e ganharam poder através das redes sociais, o que permitiu aos cidadãos do Egito e da Líbia se engajarem, fomentando novos debates e unindo as pessoas contra o autoritarismo governamental. Essas mobilizações colocaram em xeque ditadores que estavam no poder há décadas. A capacidade de disseminação de informações e a conseqüente organização dos movimentos mostra a força das redes. “O ciberespaço se tornou uma ágora eletrônica global na qual a diversidade da divergência humana explode em uma cacofonia de sotaques” Castells (2003: p. 114). As atividades humanas, sejam elas políticas, culturais, econômicas, são moldadas a partir dessa tecnologia da informação e mantêm a interdependência global. “A internet é um instrumento que se desenvolve, mas não muda comportamentos; ao contrário, os comportamentos se apropriam da internet, são amplificados e potencializados a partir do que são ”(MORAES, 2004: p. 273). Com o aumento da distância social e a necessidade constante de manutenção das atividades, novos formatos de manifestações digitais surgiram neste contexto de pandemia. A ativista Greta Thunberg trouxe o movimento #ClimateStrikeOnline para a virtualidade, enquanto outros grupos de jovens como March For Our Lives e The Sunrise Movement começaram a usar a mídia social e eventos de chamada em grupo. Em março deste ano, grupos de adolescentes foram a Animal Crossing para continuar protestos anteriores contra seu governo. No jogo, os usuários se reuniram na praia da ilha coberta por fogueiras, cercados por fotos de sua chefe de governo, Carrie Lam. Enquanto isso, uma grande placa no centro dizia "Liberte Hong Kong, revolução agora". O jogo foi banido das lojas online chinesas devido ao protesto.



Como afirma o sociólogo Gohn (2008: p. 445), “[...] as redes sociais têm, para muitos pesquisadores, um papel ainda mais importante do que o movimento social. Mas eles o redefinem como redes de mobilização social ”. Assumindo o controle: como ativistas online contornam a censura governamental Superar a censura do governo e espalhar a palavra é um desafio maior em países que controlam fortemente o tráfego online. Sites, jogos e plataformas podem ser censurados, como vimos acontecer com Animal Crossing na China.

Conhecido como um dos poucos jogos a não ser alvo de censura, o Minecraft foi escolhido para hospedar um tipo diferente de construção. O jogo, que é particularmente usado para construir novos mundos, agora contém uma Biblioteca Sem Censura, um trabalho da Repórteres Sem Fronteiras em parceria com a BlockWorks. A iniciativa visa combater a censura em países com regimes que oprimem a liberdade de expressão e o jornalismo.

O é uma grande biblioteca virtual construída no jogo que reúne artigos censurados de todo o mundo, permitindo o acesso e capacitando as pessoas por meio do conhecimento. É interessante observar que enquanto a tecnologia é usada para monitorar também é usada para contornar o mesmo sistema, quase como uma metáfora ouroboros. Ao explorar a capacidade das redes digitais de impulsionar os movimentos políticos, é extremamente necessário olhar para Black Lives Matter, que existia desde 2013 como um movimento político, mas foi agravado pelo assassinato de George Floyd no início deste ano e tomou as ruas. No segundo dia de junho, mais de 28 milhões de usuários do Instagram participaram do #BlackoutTuesday, que teve como objetivo abrir espaço para vozes negras e aumentar a conscientização sobre o movimento BLM.




Outro exemplo do fenômeno observado são os movimentos dos fãs de K-pop. O gênero musical, que se originou no ambiente digital, tem uma base extremamente bem articulada de aliados nativos digitais.


As mobilizações desses grupos chamaram a atenção mais de uma vez nos últimos meses, durante os protestos em Dallas, a polícia criou um aplicativo para identificar os participantes dos protestos, que foi inundado por vídeos TikTok de pessoas dançando e cantando.


Quando a polícia usou hashtags para localizar os manifestantes BLM, os fãs de K-pop inundaram a linha do tempo com postagens aleatórias, mais uma vez para desviar a atenção e evitar que os manifestantes fossem rastreados.




O poder da sociedade em rede e sua aplicação no ambiente de manifestação política é uma das etapas da cidadania digital. A democratização do conhecimento e da informação muda a imagem de futuro das pessoas, abrindo novos horizontes. Compreender o impacto do ativismo digital nos permite especular sobre o impacto nas instituições sociais e nos permite nos capacitar para afetar a mudança de forma mais eficaz e eficiente.

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