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  • Ana Luiza de Lima

Ativismo Virtual

Atualizado: Set 9




Illustration by Maria Chimishkyan


Por aqui já exploramos algumas vezes a quebra da fronteira entre o que chamamos de real (ou físico, no caso) e virtual. Abordei esse tema no post Phygital, que debate as estratégias físicas + digitais abordadas por diversas marcas.


Explorando o tema um pouco além de marcas, vamos tratar neste texto da capacidade política da virtualidade. Desde o começo dos anos 2010s fala-se sobre ativismo virtual, e quando ultrapassamos as barreiras do entretenimento conseguimos vislumbrar o poder da sociedade em rede conectada.


A migração de manifestações que começam em ambientes virtuais e estendem para as ruas se tornou um dos grandes movimentos dessa segunda década do milênio, já em 2011, vimos o crescimento da Primavera Árabe que mostrou a força de manifestações em redes sociais para disruptar o poder político de um país. Para quem não conhece, ou não se lembra, a Primavera se resumiu em um encontro (virtual) entre cidadãos do Egito e da Líbia, que permitiu a formação de novos debates e a união desse povo contra o autoritarismo do governo, essas mobilizações colocaram em xeque ditadores que estavam há décadas no poder.


A capacidade de disseminação de informação e consequente organização dos movimentos mostra o poder das redes. “O ciberespaço tornou-se uma ágora eletrônica global em que a diversidade da divergência humana explode numa cacofonia de sotaques” Castells (2003: p. 114).


As atividades humanas, sejam elas no campo político, cultural, econômico, são hoje moldadas a partir dessa tecnologia da informação e mantêm uma interdependência global. “A internet é um instrumento que desenvolve, mas que não muda os comportamentos; ao contrário, os comportamentos apropriam-se da internet, amplificam-se e potencializam-se a partir do que são” (MORAES, 2004: p. 273).


Com o aumento do distanciamento social e a constante necessidade de manutenção das atividades, novos formatos de manifestações digital surgiram nesse contexto da pandemia. A ativista Greta Thunberg trouxe para a virtualidade o movimento #ClimateStrikeOnline, enquanto outros grupos de jovens como March For Our Lives e The Sunrise Movement passaram a usar mídias sociais e eventos de chamada em grupo.


Em março deste ano, grupos de adolescentes foram ao Animal Crossing para dar continuidade aos protestos anteriores contra seu governo. Dentro do jogo, os usuários se reuniram na praia da ilha coberta por fogueiras, cercados por fotos de sua chefe de governo, Carrie Lam. Enquanto isso um grande cartaz no centro dizia “Liberte Hong Kong, revolução agora”. O jogo foi banido das lojas online chinesas devido ao protesto.



Como coloca a socióloga Gohn (2008: p. 445) as “[...] redes sociais passam a ter, para vários pesquisadores, um papel até mais importante que o movimento social. Mas eles a redefinem como redes de mobilização social”.


Dessa forma, vimos se desenvolver diferentes tipos de movimentos durante o tempo de isolamento, o Black Liver Matter, por exemplo, foi um movimento que teve inicio na rua mas dominou as redes no segundo dia de Junho, com mais de 28 milhões de usuários do Instagram participaram do #BlackoutTuesday, que viu as pessoas postarem uma foto de um quadrado preto, pausando seu conteúdo social durante o dia para dar a espaço para vozes negras e aumentar a conscientização sobre o movimento BLM.


Outro exemplo do fenomeno observado são as movimentações dos fãs de K-pop, o gênero, que teve origem no ambiente digital, possui uma base de aliados extremamente bem articulada e mais importante, são nativos digitais. As mobilizações desses grupos chamou a atenção mais de uma vez nos últimos meses, durante os protestos em Dallas a polícia criou um aplicativo para identificar indivíduos que participavam de protestos, o qual foi inundado por vídeos do TikTok de pessoas dançando e cantando. Quando a polícia usava hashtags para localizar manifestantes do BLM, fãs de K-pop floodaram a timeline com postagens aleatórias, novamente com o objetivo de divergir a atenção e impedir que os manifestantes fossem rastreados.





Outro feito marcante alcançado pelos stans (palavra que define osfãs de k-pop, significando stalkers + fans) foi o esvaziamento do comício do presidente Donald Trump em Tulsa, em Oklahoma (EUA), em junho. Para quem não se lembra, a equipe do então presidente chegou a se vangloriar por ter que expandir a estrtutura planejada, já que, aparentemente, mais de 1 milhão de pessoas haviam reservado assento num ginásio onde cabiam 19 mil. No dia do comício, os assentos estavam vazios.



A potência da comunicação em rede e sua aplicação no ambiente de manifestação política é um dos passos da virtualização da vida, vemos aqui como é patente a influência da atuação virtual no real. Nos próximos textos exploraremos mais a virtualidade e os aspectos da dualidade de uma vida vivida em dois ambientes.



Para saber mais acesse:

https://2030.vice.com/activism

https://intelligence.wundermanthompson.com/2020/06/virtual-activists/

http://www.mtv.com/news/3162266/coronavirus-outbreak-leads-to-virtual-activism/



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